Autoestima não é repetir frases no espelho
A autoestima é um tema vasto e discutido em todas as esferas da vida moderna. Em muitas redes sociais, vemos frases de motivação como “você é incrível” ou “acredite em si mesma”. Embora essas frases possam ter um impacto positivo em alguns momentos, elas também correm o risco de se tornarem vazias se não estiverem acompanhadas de um processo mais profundo de autocompreensão.
A psicanálise, enquanto prática terapêutica, nos propõe uma jornada mais complexa e verdadeira de reconectar-se consigo mesma. Não se trata apenas de se olhar no espelho e repetir frases positivas, mas sim de investigar as origens de nossas inseguranças, os mecanismos inconscientes que moldam nossa percepção de nós mesmas e, principalmente, os padrões emocionais que, muitas vezes, nos mantêm aprisionadas.
O Mito da Autoestima Superficial
Quem nunca ouviu, ou até mesmo repetiu para si mesma, que “basta acreditar em si para ter sucesso”? Essa frase, por mais bem-intencionada que seja, ignora a complexidade da experiência humana. A autoestima verdadeira não nasce de um pensamento positivo forçado ou de uma autoafirmação superficial. Ela surge, muitas vezes, da aceitação de nossas falhas, da compreensão das nossas dificuldades e da coragem de enfrentar os nossos medos internos.
Replicar frases no espelho pode gerar uma sensação temporária de alívio, mas elas não chegam a tocar o fundo da questão. A verdadeira autoestima exige um mergulho mais profundo nas questões não resolvidas que carregamos dentro de nós — aquelas vozes internas que muitas vezes nos dizem que não somos boas o suficiente, ou que não merecemos o que desejamos.
Mergulhando nas Origens
A psicanálise se distancia dessa ideia de uma autoestima superficial e coloca em foco a construção interna do sujeito. Ao longo de nossa vida, nos formamos através das relações que estabelecemos com nossos cuidadores, com a sociedade e, sobretudo, com a nossa história de vida. O que acontece é que muitas vezes, sem perceber, desenvolvemos um conjunto de crenças e sentimentos sobre nós mesmas que não condizem com a realidade de quem somos de fato. Esses aspectos inconscientes da nossa psique, muitas vezes, moldam nossa visão de mundo e a maneira como nos relacionamos com nós mesmas.
Quando alguém se vê diante de um espelho e repete palavras de afirmação, ela não está realmente questionando de onde vem a necessidade de autoafirmação ou de onde brotam as inseguranças. A psicanálise nos propõe que, ao invés de apenas acreditar no que vemos no espelho, olhemos para o que está além dele, para o que ainda não conseguimos ver ou compreender de forma clara dentro de nós. Esse é o trabalho terapêutico: criar espaço para que o inconsciente se manifeste e para que possamos, enfim, integrar aspectos nossos que estavam reprimidos.
A prática de se olhar profundamente em nossos próprios sentimentos, nossos comportamentos, e até mesmo em nossos sonhos, nos permite entender de onde vêm nossos sentimentos de insegurança e de autocrítica. O trabalho psicanalítico é, portanto, uma jornada de autoconhecimento que não se limita ao nível da superfície, mas que nos faz enfrentar a nossa verdade interna.
O Reflexo no Espelho: O Que Está Oculto
Muitas vezes, nos vemos em situações que nos fazem sentir incapazes ou indignas, e nossa autoestima se fragiliza. No entanto, essas sensações não surgem do nada. Elas vêm de histórias passadas, de experiências que foram mal interpretadas ou de vínculos que nos ensinaram, de forma equivocada, o que significa ser valiosa. Ao longo do tempo, essas mensagens ficam armazenadas em nosso inconsciente, e sem uma reflexão consciente, continuam a governar nosso comportamento e nossas emoções.
A psicanálise entra aqui com uma proposta transformadora: ela nos oferece a oportunidade de olhar para essas mensagens internas e reinterpretá-las. Não se trata de apagar o passado ou negar que passamos por dificuldades, mas de revisitar essas histórias, compreender o seu impacto e, finalmente, encontrar novos significados para essas experiências. Quando fazemos isso, criamos uma nova narrativa para nós mesmas, uma narrativa onde somos mais do que nossas inseguranças, mais do que nossas falhas ou dificuldades.

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